Conversas em torno de Gnu-Linux com um ex-infoexcluído…

Uma das coisas mais importantes que podemos fazer na nossa vida é redistribuir informação. Passar a palavra, ensinar; partilhar o pouco que temos, para que outros possam beneficiar onde nós beneficiámos. Foi um pouco o que fui fazer ao IEFP de Alcoitão, a convite do Tiago Carrondo, uma dos membros mais activos da comunidade Ubuntu Portugal e “formador extraordinaire”.

O tema da apresentação era simples: os sistemas operativos Gnu-Linux e o software Open-Source são fáceis de usar, instalar e gerir. Não é preciso ser programador ou “geek” para poder usá-los no dia a dia, na nossa vida pessoal e profissional. E há muito a ganhar com isso.

Houve risos da assistência, à conta das pequenas histórias humorísticas de quem começou a trabalhar com computadores em 1999, no primeiro dia de trabalho, sem nunca ter experimentado um – até à parte em que expliquei, entre alguma incredulidade, que só descobri os sistemas operativos e o software livre em 2009, que adoptei e passei a usar diariamente em menos de um mês. “Como assim?”. É verdade; os sistemas operativos Gnu-Linux são plataformas muito amadurecidas, intuitivas e fáceis, que qualquer utilizador doméstico pode usar, com mais vantagens e mais facilidade de utilização do que sistemas operativos proprietários – nos custos, na liberdade de escolha, na personalização total, na imensa oferta e variedade e numa comunidade muito activa.

A audiência era constituída de formandos do centro, que eram interessados, participativos e até, conhecedores do tema, bem como algumas pessoas de outros cursos de formação que nunca tinham tido conhecimento do universo Ubuntu e Gnu-Linux. Todos puderam ver, por exemplo, o meu minúsculo, fiel e miserável Netbook de 200 euros, com 4 anos de vida útil, a correr Lubuntu com um conjunto de aplicações para todos os fins, com bastante desenvoltura: Libreoffice completo, edição de imagens, gráficos vectoriais, várias aplicações de Internet, editores de vídeo e áudio, simuladores de astronomia…tudo num disco que apenas ocupava 6 Gigabytes no total. Sem vírus, muito estável, compatível com o projector de vídeo à primeira e funcionando de imediato, com o kernel de Linux mais recente, a correr 10 aplicações em simultâneo, sem se engasgar – e ainda por cima, com um interface agradável, ergonómico e bonito…que os olhos também comem. Isso abalou o mito (constantemente vendido pela indústria de hardware e do software proprietário) de que os computadores têm de ser constantemente actualizados para poderem usar software mais “actual” – é dizer: mais pesado e mais exigente em recursos, mas nem por isso mais eficiente. Através daquele humilde, mas aguerrido hardware (que passou de mão em mão), a tónica foi colocada em algo que hoje faz todo o sentido: maximização de recursos e de investimento. É importantíssimo que o país e o espaço Europeu em geral privilegiem uma ética de poupança e de maximização de todos os recursos investidos. Posto de maneira muito simples: se eu posso fazer todo o meu trabalho de forma muito eficiente, com um computador muito barato, equipado com software actual e de grande qualidade como é este – para quê gastar demasiado dinheiro em software e hardware caro e ineficiente, para obter o mesmo resultado, ou pior?

Ou seja: usar Software Livre e construído em modo Open-Source, não é só bom porque “ajuda a poupar dinheiro”, mas porque ajuda a investir bem os recursos disponíveis. Como exemplo prático, apresentei o caso da associação PédeXumbo, que recuperou com Ubuntu um parque de velhas máquinas desktop muito heterogéneas, que de outro modo estariam obsoletas e seriam desperdiçadas – fazendo com que se gastasse mais dinheiro, não só em licenças, como em equipamentos novos – para fazer o mesmo trabalho de antes. Ou o exemplo da Faunalia, uma empresa que trabalha com o software de informação geográfica “Quantum GIS” e que usa Software Livre em exclusivo para absolutamente todas as tarefas do dia-a-dia.

De entre todas as perguntas que entretanto se seguiram, uma foi muito importante e ajudou a esclarecer como funciona uma economia de colaboração: toda a gente pode contribuir para o desenvolvimento deste software?

Sim – como exemplo prático, apresentei a razão de ter sido convidado para relatar a minha experiência: não sei escrever uma linha de código. Não sei programar nada – e no entanto também já contribuí, por exemplo, com traduções. E outras pessoas podem contribuir com muito mais, para que todas ganhem.

E essa é a grande diferença e a grande oportunidade que está aberta a todos nós: o modelo de trabalho colaborativo, neste período de crise de crédito, é a principal “arma” contra o modelo de economia de monopólios rentistas que nos rodeia e está a ser duramente contestada. E é por isso que o Software Open-Source tem um enorme potencial, para libertar as pessoas – porque isso lhes dá poder partilhado, sobre o seu trabalho e as suas opções, sem se sujeitarem a uma relação de dependência com monopólios. E acima de tudo, de dominarem ferramentas que lhes tragam meios de subsistência, onde investem 10 para terem um retorno de 100, onde investem conhecimento e valor para a comunidade e recebem tudo isso multiplicado por muito mais, fazendo um muito melhor aproveitamento de recursos escassos, para benefício de todos. Esse modelo de cooperação, combinado com a adopção de normas abertas e software Livre nas instituições públicas e empresas privadas, pode trazer igualdade de oportunidades para todos – inclusivamente, para aqueles que menos têm.

A tão citada “economia do conhecimento” não é comprar e consumir o último “gadget” desenhado em Cupertino ou Seattle e fabricado na China, alimentando transferências de capitais para os centros de poder mundial – é saber utilizar, modificar e criar novas ferramentas, aqui mesmo. O efeito multiplicador de uma comunidade Open-Source forte e dinâmica em Portugal teria um impacto tremendo nas exportações – e nos ganhos das empresas, pessoas e serviços públicos. Quanto mais pessoas tivermos a desenvolver estas ferramentas e a usá-las, mais criadores, empreendedores e professores teremos. O conhecimento, ao contrário do dinheiro, que é baseado na escassez, é algo que enriquece e melhora as vidas de todos, quanto mais livremente for copiado, replicado e partilhado. E o que vi no IEFP de Alcoitão foi isso mesmo: uma pequena comunidade de pessoas dedicadas que está levantar um país inteiro – uma pessoa de cada vez.